Resenha histórica do território de Anégia
Boelhe, tal como todo o actual concelho de Penafiel, esteve integrado, durante os séculos centrais da Idade Média, num vasto território jurídico e administrativamente independente: Anégia.
O termo "território" designava uma vasta área, inferior à província dos Romanos. A documentação notarial do séc. VIII ao séc. IX apresenta inúmeras vezes o território de Anégia como abrangendo a nossa região e enquadrando-o num espaço geográfico de aquém e além Douro. Este espaço ia desde terras superiores do rio Ferreira, aos vales do Sousa e do Tâmega, passando o Douro até metade do Paiva, confrontando, assim, os "territórios" da Feira, Lamego e Portucale.

Em meados do séc. XI, no ano de 1064, surge-nos pela primeira vez a expressão Terra de Penafiel. Designação definitiva! Neste documento de 1064, um tal Pedro Viegas e sua mulher D. Sancha fazem uma doação, ao Mosteiro de Paço de Sousa, de uma quinta situada "na terra de Penafiel (...), entre Font' Arcada e Castromil". Nas Inquirições de 1258, já as freguesias do actual concelho são inventariadas sob o título de "De Judicato Penafidelis" - O Julgado de Penafiel, o que permite afirmar com segurança que este território já existia há muito, integrado em Anégia, mas com uma individualidade própria.

O reordenamento administrativo de que resultaria o fim de Anégia e o surgimento da Terra de Penafiel, e também da Terra de Paiva e de Sousa, teve a ver com a necessidade de repovoamento do país. A Reconquista terminara e urgia estreitar as relações entre a Coroa e o poder local, fragmentando este, com o objectivo de o centralizar na Coroa.

À Terra de Penafiel pertenciam, pelo séc. XI, além de Boelhe, os lugares de Rio Mau, Melhunde, Figueira, Rio de Moinhos,Rande, Font'Arcada, Vila Cova de Perafita, Escariz, Castanheira de Cima, Poiares, Esmegilde, Salgã e Budelos, o Mosteiro de Pedro Rans, Irivo, Fafiães, Galegos, Oldrões, Paredes, Zeidoneses, Vila Cova, o rio Cavalum, o Cebrário, o ribeiro Ladrones, o Mosinho, o Monte de Peroselo, o Monte de Ordins, o Monte de Perafita e o Vale de Penafiel.

Cerca de 1078, o pai de Egas Moniz, (o célebre aio de D.Afonso Henriques), Munio Viegas, era " Mandante in ipsa terra de Penafiel", sendo nela mordomo Diogo Cidiz e juíz Rando Sande. Em 1088, um primo co-irmão de Egas Moniz, Egas Ermiges, doou-lhe os seus bens na " terra de Penafiel", em Escariz, e Lagares. Por estas fontes históricas, ficamos a saber que em meados do séc.XI, Escariz e Lagares eram "villas" independentes. Hoje contudo, Escariz não passa de um dos lugares da freguesia de Lagares.

Embora com os Forais Manuelinos (1497) o território de Penafiel conheça já os seus limites actuais, só assim viria a ser denominado depois da carta régia dada por D.José em 24 de Março de 1770, cujo teor passamos a transcrever: "hei por bem e me praz que a dita povoação de Arrifana de Sousa do dia da publicação deste em diante fique creada em cidade com o nome de Penafiel".

Antes deste diploma régio, o território correspondente a Penafiel era denominado " Arrifana de Sousa", e segundo a lenda era, desde o séc.X, pertença de D.Arriana Ermenegides, filha de Mumadona Dias, tendo passado posteriormente para o património da Casa dos Sousas. A tradição popular atribui esta denominação à história de amor entre D.Mendo de Sousa e Arriana. Com efeito, este grande senhor apaixonara-se por ela, perdidamente, mas como lhe chamava sempre Arrifana, ela nunca lhe perdoou, não o aceitando em casamento.

Todavia, após a morte de Mumadona e sua filha, D.Mendo vem a herdar os bens em Penafiel. Como forma de homenagear a sua antiga apaixonada decide perpetuar o seu nome, ligando-o ao dele, na denominação escolhida para aqueles locais "Terras de Arrifana de Sousa".